Por Adriana Cotias

O Santander recebeu autorização do Banco Central (BC) para colocar na rua a Pi, a sua plataforma digital de investimentos. Com um nome que faz referência ao número pi da matemática, o negócio não tem ligação com a Santander Corretora. Vai ser o ponto de contato com não correntistas do banco, sob o modelo de arquitetura aberta, com a oferta de produtos de terceiros.

Para comandar a nova DTVM, o banco trouxe Felipe Bottino, que até outubro era diretor da Icatu Seguros e foi um dos responsáveis pelo casamento da previdência aberta com as gestoras independentes, forçando a concorrência nesse segmento com os bancões.

Segundo Fernando Miranda, diretor de novos negócios do Santander, a alternativa de levantar um projeto do chão, sem usar a infraestrutura da corretora já existente, foi para não engessar o negócio que teria que ser construído em cima de uma tecnologia mais antiga. Entre a idealização, trâmites legais e o desenho operacional foram nove meses. Dentro de uma organização do porte do Santander, com presença em diversos países, usar a base atual levaria duas ou três vezes mais tempo, estima.

“É uma empresa 100% do grupo, em que se usou o conceito de intraempreendedorismo. Em vez de uma aquisição ou parceria estratégica, criamos do zero, apartada [do banco], com tecnologia própria, marketing próprio, 100% digital, aos moldes de uma fintech [empresa de tecnologia financeira]”, diz Miranda.

Apesar de o grupo chegar um pouco mais tarde do que os concorrentes do setor bancário ao modelo de arquitetura aberta no varejo, o executivo diz que não se trata de “uma fintechizinha para brincar e ver se faz sentido”. A ideia é que o negócio tenha relevância para o grupo. “O banco não só investiu como está investindo quantias elevadas”, afirma Miranda, sem abrir o valor orçado.

Ele cita que demorar para estrear trouxe a vantagem de ter noção do que precisaria ser feito para tomar um pedaço do mercado, além de já contar com tecnologia atualizada. “A gente chegou com um apetite grande porque o mercado é pequeno. Os números de AUM [ativos sob gestão] das plataformas digitais não passam de 8% a 9% do total.”

A iniciativa do grupo espanhol no Brasil é mais uma resposta do setor bancário tradicional ao avanço das plataformas independentes, simbolizado pelo fenômeno XP Investimentos.

A compra de quase metade da XP pelo Itaú por R$ 6,3 bilhões é apenas a face mais aparente dessa tendência. O maior banco privado brasileiro também se mexeu para replicar a arquitetura aberta dentro de casa e abraçou o modelo de assessores especialistas. O Bradesco veio na mesma linha com a sua plataforma de investimentos e modernização da corretora Ágora para acolher o não correntista, enquanto o Banco do Brasil passou a distribuir fundos de gestoras independentes para a segmentação de alta renda, oferta antes restrita ao private banking.

O cronograma prevê que a Pi inicie a sua fase piloto em algumas semanas para um grupo restrito de amigos e familiares do Santander. A expectativa dos executivos é que entre em operação no início de 2019. No cardápio, a plataforma vai ter uma linha parecida com a de outras corretoras, com ativos de renda fixa, fundos e previdência complementar, com ações e Tesouro Direto acrescentados progressivamente.

A diferenciação, diz Miranda, virá pela aliança de inteligência artificial com educação financeira de forma contextualizada. “Dependendo de quem seja o cliente e o que ele busca, o momento da vida dele, vai ter um ‘set’ de produtos [ofertados], como faz o Magazine Luiza ou a Amazon “, compara.

Bottino acrescenta que o instrumento de educação financeira é importante para que o investidor se sinta confortável para assumir mais ou menos riscos. Como exemplo, ele cita a forma de apresentar o resultado de uma NTN-B, título público com retorno previsível, mas de alta volatilidade e que pode assustar o aplicador nos momentos de baixa. “Se o cliente se desespera no meio do caminho, pode perder o capital investido. Se você educa antes e ao longo do tempo, ele fica tranquilo, sabe que tomou a direção certa.”

O executivo antecipa que a intenção não é entrar numa guerra de tarifas para atrair o investidor, como se vê em alguns programas de corretagem zero. “As plataformas digitais dificilmente têm preços ou produtos muito diferentes. Seremos competitivos, mas a ideia não é brigar em preço porque isso não é em prol do cliente.”

Publicado originalmente no Valor Econômico e escrito por Adriana Cotias

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