Com ajuda da tecnologia, a Provi financia interessados em fazer cursos para melhorar a qualificação profissional

Por Paula Pacheco

O primeiro flerte como empreendedor do mineiro Fernando Franco, de 27 anos, não teve final feliz. A onda dos food parks arrefeceu e o negócio que tinha com alguns sócios, em São Paulo, não foi adiante. Mas a experiência como operador de uma empresa o inspirou anos depois.

Passada a fase de “barriga no balcão”, formado em engenharia aeronáutica, Franco voltou para o mercado financeiro. Um ano e meio depois, decidiu que era hora de partir novamente para uma iniciativa própria. Ele convidou um amigo para viajar e, juntos, foram buscar conhecimento junto a especialistas e empreendedores. Foram visitas e palestras nos Estados Unidos, alguns países da Europa e China. Com um mercado financeiro peculiar e inovações sendo produzidas em ritmo acelerado, o país asiático chamou a atenção de quem buscava inspiração.

“Vimos como o crédito era concedido aos chineses e a diferença para o mercado americano, que é muito pulverizado. Quando não há informação disponível sobre quem precisa do dinheiro, é preciso recorrer a caminhos não tradicionais”, relata. Por exemplo, buscar dados em redes sociais e, a partir deles, traçar o perfil do cliente e seu risco.

O amigo de Franco vinha de uma experiência na área de crédito de um grande banco. Juntos, eles decidiram criar uma fintech voltada à concessão de crédito para quem busca um curso profissionalizante.

“Todo mundo está fazendo a mesma coisa no Brasil. Vimos que não dava para ser mais uma empresa de crédito caro, que atrapalha a vida das pessoas. Queríamos fazer a diferença. Se era para usar o dinheiro emprestado, que fosse para uma coisa boa, não para comprar uma bolsa cara ou um carro novo”, relata.

Depois de muita pesquisa, Franco e o sócio definiram a área de atuação da fintech Provi. O crédito seria oferecido a quem precisa de recursos para estudar e melhorar suas condições no mercado de trabalho. Foi preciso reunir as economias do tempo em que trabalharam em banco e usar o dinheiro da venda dos carros para dar os primeiros passos. “Tinha de dar certo, do contrário, começaríamos negativados”.

A ideia foi amadurecida depois que a Provi se aproximou do C6 Bank. O banco digital, que ainda está em fase pré-operacional, criou uma incubadora para abrigar startups e apoiá-las em sua estruturação, por meio do hub de empreendedorismo Opp. Quando foi lançado o processo de seleção, no fim do ano passado, a instituição financeira recebeu 344 inscrições, foram feitas 140 entrevistas e quatro empreendimentos foram selecionados. A Provi foi a vencedora do primeiro “demoday” e, na próxima semana, se prepara para a apresentação final.

Na troca de experiências na incubadora, os sócios perceberam que não seria viável oferecer o crédito por meio de divulgações em redes sociais, com a captação de clientes de forma aleatória. Esse trabalho poderia ser feito por meio de parcerias com escolas, de diferentes segmentos. O primeiro movimento foi em direção às instituições formadoras de desenvolvedores. “O país tem cerca de 13 milhões de desempregados. Apesar disso, há muitas vagas para desenvolvedores. E se financiássemos quem estivesse em busca desse tipo de formação? Foi assim que passamos a procurar escolas especializadas nesse perfil para oferecer parceria.”

ANÁLISE

Cursos para desenvolvedores podem custar até R$ 20 mil e a formação leva de quatro a seis meses. Um profissional em fase inicial de carreira tem salário mensal de R$ 3,5 mil, em média. “Com esses acordos, os financiamentos dos cursos passam a ser feitos pela Provi.

Um dos parceiros da fintech, que conta com apenas seis pessoas na equipe, é a Ironhack, escola de programação e design interativo, em São Paulo.

O processo para o financiamento é feito por meio do aplicativo da Provi. Antes de liberar o financiamento, que é pago diretamente para a instituição de ensino, a startup analisa dados públicos disponíveis nas redes sociais, com a permissão do candidato, além de outros dados. A análise, segundo Franco, leva em consideração aspectos mais “humanos” do candidato, como o nível do seu entusiasmo com a possibilidade de passar por uma formação. Esse cruzamento de informações é feito por meio de machine learning.

“Os bancos fazem empréstimo pensando na vida passada, olhando para a renda passada do potencial cliente. Mas as pessoas são qualificadas profissionalmente, por meio do financiamento de cursos, esse empréstimo é dado pensando na sua renda futura”, explica o fundador da fintech.

Hoje, além dos cursos para desenvolvedores, a Provi já financiou cursos na área de estética e se prepara para outros segmentos. A partir de agosto, passarão a ser financiados também médicos recém-formados que estão em fase de residência e que têm dificuldades para se manter apenas com a bolsa- residência. Muitos, segundo Franco, desistem da especialização porque não têm como se sustentar.

negociações Nos primeiros meses de operação, a Provi já financiou cerca de 100 pessoas e os empréstimos já passaram de R$ 1 milhão. Franco acredita que terá condições de chegar ao fim do ano com R$ 10 milhões financiados, aproximadamente. Essa aceleração no crescimento vai depender das negociações com fundos de investimento.

O valor médio dos empréstimos é de R$ 10 mil e os cursos variam de R$ 2 mil  a R$ 17,5 mil. Os juros são a partir de 0,75% ao mês, mas podem chegar a 2,99%, de acordo com o número de parcelas – que podem atingir dois anos. Há casos até de juro zero, com uma negociação prévia diretamente com a escola, que oferece bolsas de estudo. Com o pagamento feito diretamente para a escola, Franco diz que consegue evitar fraudes e oferecer o crédito a um custo mais barato. Também a partir de agosto, a Provi passa a fazer parte do LIFT, programa de inovação coordenado pelo Banco Central e voltado a fintechs.

“Antes, imaginava que aos 50 anos queria ter alguns milhões na conta. Agora, quero daqui a 30 dias dizer que mudei a vida de uma ‘porrada’ de pessoas”, diz o empreendedor.

Fonte: Estado de Minas / Autor: Paula Pacheco

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